A sexualidade na adolescência: o que mudou na última década?

O desenvolvimento da mídia, o maior acesso às informações, o surgimento e o uso intenso das redes sociais e a independência do corpo são fatores cruciais para a  sexualidade genital ter se tornado algo comum, aceitável e em muitos casos até banal nos dias de hoje.  A adolescência é naturalmente um período turbulento para os jovens, principalmente pelas descobertas e escolhas que são feitas.

Para a sexóloga e psicóloga Sônia Eustáquia, a descoberta é feita muito cedo porém, para ela, o aprimoramento da sexualidade é feito depois. A acessibilidade aos meios de comunicação, a pouca disponibilidade de tempo de pais e educadores dentre outros fatores socioculturais tem levado esses jovens à descobertas apropriadas e não apropriadas muito cedo.

De acordo com ela, os pais sempre se queixam da internet, dos amigos, dos passeios à shopping e também que não dão conta do controle disso. Os educadores se aprofundam em pesquisas para localizar o fenômeno da adolescência que é natural, nas mudanças comportamentais contemporâneas. A comparação do fenômeno atual com os tempos mais antigos torna-se quase inevitável, pois as mudanças comportamentais de cunho sexual se deram com muito vigor nessas últimas décadas que coincidem com a evolução nas comunicações como a Internet, aparelhos eletrônicos etc. Hoje não precisa se locomover para se ter uma relação sexual, ela pode acontecer de forma virtual, muitas vezes com pessoas que nunca se tocaram ou se viram realmente.

“Eu acho os jovens de hoje muito imaturos em relação à se responsabilizarem por si mesmos. Dependem financeiramente dos pais até terminarem a faculdade, repelem a ideia de  dar satisfação do que estão fazendo, não conseguem se ver no lugar do outro e muitas vezes reproduzem na sociedade o  lema que vivem em casa:  “ levar vantagem em tudo” sem dar satisfações. A sexualidade faz parte disso; por isso não os considero preparados emocionalmente para uma vida sexual responsável. Há uma incoerência muito grande e não leva a aprendizado satisfatório algum. As famílias devem estar abertas ao diálogo e se manterem coerentes em suas crenças e valores. Afinal, a maioria ainda sabe o que é melhor para seus filhos, e se colocam limites é por amor. Temos raras exceções disso.”, afirma Sônia.

Segundo o IBGE, Nas duas últimas décadas, a incidência de casos tem aumentado significativamente e ao mesmo tempo, tem diminuído a média de idade das adolescentes grávidas. Quando uma adolescente engravida, geralmente ela se vê numa situação não planejada e até mesmo indesejada. Na maioria das vezes, a gravidez na adolescência ocorre entre a primeira e a quinta relação sexual. Cerca de um milhão de adolescentes ficam grávidas todo ano.  Uma em cada três meninas de 19 anos já é mãe ou está grávida de seu primeiro filho. A incidência de casos tem aumentado em 1 milhão a cada ano e a média de idade diminuído, o que é uma pena. “A maioria das famílias ainda acha que levar a filha ao ginecologista estaria se antecipando ao desejo daquela menina; mas mesmo assim eu ainda tenho esperança de que a prevenção, em todas as situações incluindo a gravidez, ainda serão reconhecidas como de saúde pública, ou seja, o Estado dividindo ou participando com os pais de uma decisão difícil. Lembra-se da vacinação do vírus HPV? No comecinho teve umas rejeições depois passou. Hoje todo mundo acha natural. Nós que somos formadores de opinião temos que ficar atentos a essas causas e ajudar as famílias e a sociedade como um todo na quebra de tabus incluindo os da sexualidade. Vejo isso como responsabilidade minha, pessoal e profissional também”, diz a sexóloga

Sônia dá um conselho aos jovens que iniciam a vida sexual cedo e que muitas vezes gera uma gravidez indesejada: primeiro tenha consciência de que uma gravidez não planejada e precoce pode atrapalhar a sua vida para sempre. Todos os projetos serão postergados ou adiados por tempo indeterminado o que pode levar a uma sensação de fracasso e de baixa autoestima. Eu creio que um adolescente só estará pronto para a vida sexual quando tiver essa consciência e souber prevenir. Quase sempre o início da atividade sexual está relacionado ao contexto familiar, adolescentes que iniciam a vida sexual precocemente e engravidam, na maioria das vezes, tem o mesmo histórico dos pais. A interrupção impensada dos comportamentos conservadores  a liberdade idealizada, o hábito de “ficar” em encontros eventuais, a  não utilização de métodos contraceptivos, seja por desconhecimento ou por tentativa de esconder dos pais a vida sexual ativa, fazem com que a cada dia a atividade sexual infantil e juvenil cresça e consequentemente haja um aumento do número de gravidez na adolescência.

Adolescência e gravidez, quando ocorrem juntas, podem acarretar sérias consequências para todos os familiares, mas principalmente para os adolescentes envolvidos, pois envolvem crises e conflitos. O que acontece é que esses jovens não estão preparados emocionalmente e nem mesmo financeiramente para assumir tamanha responsabilidade, fazendo com que muitos adolescentes saiam de casa, cometam abortos, deixem os estudos ou abandonem as crianças sem saber o que fazer ou fugindo da própria realidade. Para muitos destes jovens, não há perspectiva no futuro, não há planos de vida. Somado a isso, a falta de orientação sexual e de informações pertinentes. A mídia através de novelas, por exemplo, pode passar de maneira subliminar a mensagem de que a sexualidade é algo mágico reproduzindo lindos casamentos e uma vida abastada, principalmente para as mulheres; o que também pode contribuir para a busca precoce da sexualidade.

As principais observações e dicas que Sônia Eustáquia dá aos pais e educadores são:

Ter um diálogo aberto e sem pré-conceitos. Deixar disponível aos jovens o conhecimento dos métodos para evitar a gravidez e prática correta desses métodos, e caso a adolescente engravide é muito importante que faça o pré-natal para que possa compreender melhor o que está acontecendo com seu corpo, seu bebê, prevenir doenças e poder conversar abertamente com um profissional, sanando as dúvidas que atordoam e angustiam essa joven. A gravidez precoce não é um problema exclusivo das meninas, os rapazes também devem se responsabilizar pela prevenção.

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