A solidão nos tempos atuais e a vontade de estar feliz

O livro mais lido do mundo, a Bíblia Cristã, traz a narrativa da criação e nela a do homem como imagem e semelhança do seu criador. No livro do Gênesis temos a primeira vontade do criador de que o ser humano não ficasse só: “não é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele uma auxiliar que lhe seja semelhante. Então Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou então uma costela do homem e no lugar fez nascer carne.” (Gn. 2, 18-21). Depois, modelou a mulher e  apresentou-a ao homem.

Mesmo não sendo um tratado científico — mas sim um texto sobre a origem do universo e do ser humano —, é possível fazer considerações metafóricas a respeito da necessidade humana da complementaridade, e não a da solidão. Naquele momento, pode ter sido instituído historicamente que a criatura perfeita é uma só carne, homem e mulher. Unir-se e relacionar-se teria sido a tentativa do Criador para evitar a solidão ou a angústia pela falta?

Desejar entender a solidão, do ponto de vista da falta inerente ao ser humano, é inferir também que é inerente ao homem estar sempre em busca do preenchimento dessa falta; por isso buscamos no outro: amor, “coisas” materiais, reconhecimento, prazer, espiritualidade e até mesmo benemerências.

Ao mesmo tempo em que buscamos nos relacionamentos o alento para a angústia da solidão, podemos concluir que o melhor conforto encontra-se em nós mesmos e que todas as respostas estão dentro de nós.

A dificuldade que algumas pessoas encontram na convivência com elas mesmas pode representar dificuldade em desfrutar de um aspecto quase invisível da solidão, que é saudável e altamente gratificante. Passar algum tempo lendo um bom livro, vendo um filme, ouvindo música, escrevendo ou mesmo refletindo no silêncio de um lugar agradável pode ser muito prazeroso e salutar. Quando o comportamento de isolamento se tornar muito frequente e perdurar por longos períodos é que deve merecer preocupação. Pode estar acontecendo algo desfavorável como a dificuldade de se relacionar com outras pessoas e consequentemente processar a natureza da complementaridade.

Se há algum incômodo nesse autoconvívio, podemos pensar até mesmo numa depressão. Se estar sozinho produzir ansiedade — levando a atos compulsivos e exagerados como o de comer, masturbar, arrumar, entre outras condutas —, pode-se pensar que há algo errado. Talvez seja um mecanismo de defesa que faz transferir para o ato solitário as pulsões afetivas que poderiam ser vivenciadas com outras pessoas. Nesses casos é aconselhável solicitar ajuda profissional.

Estamos experimentando nos relacionamentos humanos uma era relativamente paranoica, principalmente nos grandes centros urbanos. A mídia, a todo momento, noticia a violência e a traição, e infelizmente a realidade dos fatos tem legitimado a necessidade de desconfiança para a sobrevivência. Tudo isso distancia as pessoas e dificulta novos relacionamentos.

Não é comum cumprimentarmos num elevador ou bater papo com algum desconhecido dentro de um supermercado. A indiferença parece proteger. Se prestarmos atenção, veremos que somos capazes de passar o dia inteiro vivendo com outras pessoas sem conviver com elas. Ao fim de um dia, mês, ano, percebemos que ficamos muito sós em meio a multidão. É possível percebermos também que os poucos relacionamentos que fizemos foram superficiais e fúteis.

Faz parte do desejo a intimidade, a confiança, a proteção e o amparo para se entregar e mergulhar numa relação afetiva. Mas, mesmo sendo um desejo ou uma necessidade comum a todos, parece existir um desencontro e é nesse descompasso que surge uma profunda solidão.

A solidão é como se algo dentro da gente estivesse em contradição com a nossa própria natureza. Se nascemos para a convivência e complementaridade e se poucas vezes nos bastamos, significa que há uma busca voraz e incessante para suprir essa necessidade determinada pela nossa própria condição humana.

Na tentativa de sair da solidão, as pessoas podem procurar nas relações amorosas uma saída. Algumas relações se mostram enriquecedoras e aí tudo bem; mas outras são altamente destrutivas, porque as pessoas tendem a procurar parceiros que, de certa forma, completam as suas próprias dificuldades.

Outro problema são os relacionamentos amorosos idealizados. A idealização de uma outra pessoa tem como ingrediente básico o desconhecimento do que ela realmente é. A relação amorosa ideal tem como alimento os revezes do cotidiano; os parceiros compartilham e se conhecem mais a cada dia. O fundamental hoje numa relação amorosa é a competência dos envolvidos para resolverem os conflitos que inevitavelmente vão surgir.

O amor que completa é uma construção em cima de conflitos que geram calor e mais amor a cada dia.

O mais interessante é que, uma vez suprida a necessidade, sentimos uma ótima sensação de proteção, amparo e completude (“tudo de bom!”). Porém nosso destino, que já está marcado — o de continuar procurando —, reclamará por mais preenchimento. É a falta batendo novamente na porta, querendo ser saciada.

Portanto o sentido da vida consiste no prazer de procurar preencher a falta e a solidão que nunca cessam. Por isso, desfrutar profundamente de cada momento de uma relação vivida, de cada sensação sentida, consiste na tão almejada felicidade. Não é tão difícil assim. Você pode ter muitos momentos felizes desfrutando de uma solidão gostosa ou se complementando com o outro. EXPERIMENTE.

 

DICAS:

-Dentro de você há uma riqueza inesgotável de potenciais positivos, conscientes e inconscientes. Feche os olhos, respire fundo e permita que esses potenciais emerjam para ajudá-lo, para lhe fazer companhia

-Aceite suas emoções, seja humilde. Pode ser a raiva, o medo, a solidão ou outra qualquer. Mergulhe nessa emoção e aprenda com ela. Com certeza você sairá revigorado.

-Faça uma lista de tudo que você gosta em você mesmo e depois outra, de elogios que as pessoas lhe fazem.

-Riqueza é ser capaz de amar plenamente você mesmo. Desfrute de sua própria companhia.

-Temos uma imensa capacidade de aprendizagem, e ela pode modificar, curar, organizar e ressignificar qualquer proposta que você tenha de mudança.

-Fortaleça seu corpo, durma bem, faça exercícios, alimente corretamente, seja vaidoso. Essas simples instruções são o veículo para seu prazer e crescimento.

-Exercite a virtude da gratidão. Observe e agradeça as pessoas que já lhe fizeram o bem. Agradeça também a DEUS por tudo de bom que você possui.

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