Setembro amarelo: precisamos falar sobre o suícidio

O suicídio é um fenômeno complexo, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em média, são registradas anualmente 800 mil mortes por suicídio no mundo, sendo uma importante causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos. O suicídio é considerado um problema de saúde pública.

O que leva uma pessoa a cometer suicídio?

É inerente ao ser humano duas grandes pulsões, a pulsão de vida e a pulsão de morte. Elas brigam o tempo inteiro e, normalmente, a pulsão de vida vence. Podemos pensar nessas duas cargas de energia de maneira dinâmica e sempre em movimento. A cada emoção boa em nosso cotidiano o  “medidor” da pulsão de vida sobe e nós nos sentimos cheios de esperança, coragem e sentido para viver.

No entanto, a cada frustração ou perda esse “medidor” desce, nos fazendo sentir angústia e, principalmente, um desejo de ficar livre do sofrimento e até mesmo de parar de viver. Nesse caso é a pulsão de morte que sobrepõe à pulsão de vida. É indispensável, que exista uma estabilização entre as duas pulsões, onde a pulsão de morte estaria conectada a serviço da vida, atuando em um movimento equivalente para que pudéssemos nos sentir bem e em paz.

Muitas vezes não há necessidade de que haja nenhum acontecimento externo desencadeador do sofrimento, mas sim, um ou mais elementos internos, consciente ou inconsciente que, por alguma razão, começa a produzir um sentimento de perda de vitalidade e de sentido para viver. Podemos também chamar esse sentimento de depressão. Uma pessoa completamente e fortemente desmotivada para viver pode buscar a morte.

De modo algum podemos pensar na pessoa que suicida como fraca. Nesse momento ela se encontra em profundo desamparo e solidão. O que um suicida deseja, não é a morte, porque nem ele mesmo sabe o que seria a morte, o que deseja é a fuga para seu sofrimento.

A pessoa passa a ver a morte como a única saída para o seu descanso, o alívio da angústia e a dor de sua existência. Essa aflição – pulsão de morte – na maioria das vezes é interna, vinda da mente e construída por diversos fatores traumáticos e recalques construídos no curso do seu desenvolvimento infantil. E assim, desprovido de autoestima e com um ego fragilizado, a pessoa vê na morte a melhor solução para sua dor. O suicídio, como uma manifestação humana, é como uma carta na manga que pode ser usada quando a vida se torna insuportável. Um modo de lidar com a dor de existir.

Todas as situações  de perdas e fracassos deixam as pessoas vulneráveis  e em baixa com a sua pulsão de vida, podendo, dessa maneira, estarem propensas ao suicídio.  Entretanto, contamos com um arsenal de mecanismos de defesa conscientes e inconsciente que, nessas ocasiões, podem aparecer com força total e permitir à mente fazer bom uso dos mesmos.

Sob a forma de energia positiva, sentimentos de esperança e fé, esses  mecanismos, muitas vezes aparecem naturalmente e, outras vezes, através da espiritualidade e de ajuda profissional.

Muitos autores afirmam que a pessoa suicida, comete o ato com o propósito de se vingar de pessoas com quem convivem e que para ele de alguma forma direta ou indireta o rejeitaram, ou o fizeram sofrer. No entanto, o problema é complexo e não existe uma única causa ou uma única razão, sendo o resultado de uma interação de diversos fatores.

Bullying e homofobia como causas 

O Bullying pode promover muito prejuízo emocional em qualquer pessoa e em todas as idades e gêneros. Hoje, mesmo depois de tantas leis e manifestações sociais ainda vemos a discriminação das minorias, principalmente no meio escolar. O suicídio entre jovens LGBT geralmente acontece quando são rejeitados pelos pais, pela família e/ou pela sociedade.

Pesquisas brasileiras confirmam dados internacionais e evidenciam que pessoas que ainda não se definiram em sua identidade de gênero e os bissexuais são mais propensas a  pensarem e tentarem suicídio, comparativamente aos heterossexuais já seguros de suas preferências. A questão do suicídio é uma problemática de saúde pública e a população de jovens não heterossexuais necessita de abordagens específicas para a prevenção e de atenção relativas a essa conduta.

Incidência entre homens e mulheres

Pelas estatísticas, o suicídio é maior na população masculina e isso ocorre porque eles procuram menos ajuda. O próprio homem e a sociedade colocam o peso de que ele tem que ser forte e suportar tudo. Quando não aguenta, ele se sente um fracassado.

Momentos de instabilidade econômica tendem a aumentar a incidência de suicídios e os homens estão mais vulneráveis nestes casos por terem menos flexibilidade para lidar com as adversidades. Isto se dá porque o homem molda toda a sua identidade em cima de seu papel de trabalhador e provedor. A mulher tem outros papéis na sociedade além do ligado à sua profissão, por isso ela consegue entender mais rápido que está sem um emprego e sai à procura de um novo.

Já o homem começa a abusar mais do álcool e outras substâncias, além de se isolar socialmente e ficar mais agressivo. Uma baixa tolerância à frustração também é um indício de que algo não está bem, além de falas mais melancólicas. É importante levar a sério frases que se referem ao fim da vida, à sensação de inutilidade, ao não encontrar saída.

Em relação às mulheres há ainda a depressão “puerperal”, que ocorre logo após o parto. Segundo a OMS, a depressão pós-parto afeta 10% a 15% das mulheres em países desenvolvidos. O risco de transtornos de humor no puerpério é maior no 1º mês do pós-parto, mas pode continuar por um ano. A maioria das mulheres apresenta alteração transitória e leve do humor conhecida como blues, considerada uma experiência normal. O blues começa no 4º ou 5º dias pós-parto e dura de horas a, no máximo, duas semanas. No entanto, inúmeras mães relatam que sensação de melancolia, sentimento de incapacidade, que são sintomas próprios do baby blues, pode durar até mais de 40 dias.

Para a mulher ser diagnosticada com depressão pós-parto, alguns sintomas podem estar presentes, como depressão antes ou durante a gravidez, histórico familiar da doença, história de desordem disfórica pré-menstrual, que é a forma mais grave de tensão pré-menstrual. Além disso, problemas familiares, como violência doméstica, questões financeiras e falta de apoio de pessoas próximas agravam a situação.

Além disso, uma mulher que já tenha depressão e intenções suicidas pode ser mais propensa a tirar a própria vida em situações como exposição de vídeos e fotos íntimas na internet. Entretanto, é bom lembrar que essa mesma mulher já carregava consigo e em sua estrutura psicológica, estados emocionais negativos como culpa, vergonha, angústia, dor da perda e solidão que foram potencializados nessas ocasiões. Ela pode ver na morte a maneira mais rápida para por fim no desprazer vivenciado. O ato suicida evidencia uma imensa ambivalência, onde a pessoa procura a morte, mas de certa forma deseja a intervenção de socorro. Nesse caso, o sentimento de vingança também entra em cena.

O suicídio entre os jovens

Relatório sobre prevenção ao suicídio da OMS apontam dados dizendo que o suicídio é a segunda maior causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo. Nos últimos anos o suicídio em jovens aumentou, representando a terceira principal causa de morte nessa faixa etária no Brasil.

Os comportamentos suicidas entre jovens e adolescentes envolvem motivações complexas, incluindo humor depressivo, abuso de substâncias, problemas emocionais, familiares e sociais, história familiar de transtorno psiquiátrico, rejeição familiar, negligência, além de abuso físico e sexual na infância.

Conforme a convivência com o meio social vai se estabelecendo há uma busca do adolescente em adotar valores e comportamentos visando à aceitação pelo grupo ao qual pertence. Em meio a esse período de maior desenvolvimento e amadurecimento biológico e psicológico, o adolescente se torna mais suscetível a conflitos emocionais. À medida que se dá esse desenvolvimento, ele depara-se com uma nova realidade, passando a entrar aos poucos no universo adulto, recebendo as primeiras pressões sociais. Essas pressões associadas à realidade emocional dos envolvidos podem contribuir para alterações de comportamento e surgimento de quadros depressivos, os quais, se não forem superados, correm risco de desembocar em ideações e tentativas de suicídio.

Os pensamentos sobre o suicídio são ainda mais comuns que as tentativas ou os suicídios efetivados. Pais e escolas devem intensificar os cuidados para manter o adolescente com boa saúde mental. Um adolescente mentalmente saudável tem bons mecanismos emocionais para enfrentar perdas e não cair em depressão. Também devem  ter cuidado com os filmes, séries de TV , jogos e aplicativos da internet aos quais esses jovens estão expostos.

Diferença entre a tentativa e o suícidio

A tentativa de suicídio é considerada muito diferente do suicídio propriamente dito. Estima-se ainda que o número de tentativas seja superior ao número de suicídios em pelo menos dez vezes (OMS, 2015). Para pessoas que já tentaram se matar o risco de reincidência é aumentado de 20 a 30 vezes.

O suicídio também é considerado uma questão de saúde pública, pois a cada suicídio consumado, ao menos seis pessoas próximas ao falecido terão suas vidas profundamente afetadas sócio, econômica e emocionalmente (OPAS, 2006).

A busca por ajuda

Para ajudar uma pessoa em sofrimento, encontre um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre o que a está afligindo. Ouça-a com a mente aberta e ofereça seu apoio. Incentive a pessoa a procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde mental, de emergência ou apoio, particular ou em algum serviço público e ofereça-se para acompanhá-la a um atendimento.

Se você acha que essa pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha e entre em contato com alguém de confiança, indicado pela própria pessoa. Se a pessoa com quem você está preocupado (a) vive com você, assegure-se de que ele (a) não tenha acesso a meios para provocar a própria morte (por exemplo, pesticidas, armas de fogo ou medicamentos) em casa. Fique em contato para acompanhar como a pessoa está passando e o que está fazendo.

Locais para se buscar ajuda: CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde) – UPA 24H, SAMU (ligue 192), Pronto Socorro; Hospitais – Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita de qualquer fixos e celular).

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